Introdução

A Tristeza Parasitária é uma doença infecciosa e parasitária dos bovinos causada por uma riquetsia do gênero Anaplasma (Anaplasmose) e um protozoário do gênero Babesia (Babesiose) e é transmitida aos animais pelo carrapato dos bovinos (Boophilus microplus), estando distribuída por todo o Brasil, sendo a sua maior ocorrência na região Centro-sul e com maior frequência no Estado do Rio Grande do Sul.

Mundialmente, a Tristeza Parasitária Bovina está associada à presença de carrapatos, porém em alguns Países como o Brasil, existem regiões em que os carrapatos não encontram condições de desenvolvimento e sobrevivência, como no extremo Sul do Rio Grande do Sul, parte Sul do Uruguai e Argentina e naquelas regiões, onde foi erradicado como nos Estados Unidos.

A Babesiose, ocorre nas regiões tropicais e subtropicais em quase todo o mundo, entre os paralelos 32º N e 32º S, onde os carrapatos estão presentes. A Anaplasmose ocorre tanto em regiões tropicais e subtropicais, onde existem a presença de carrapatos e de moscas hematófagas.

É uma doença conhecida desde o final do século XIX, quando era conhecida como entidade única e não como um complexo.

No ano de 1893, nos Estados Unidos SMITH & KILBORNE, identificaram pela primeira vez a Babesia bigemina, causadora da "febre do Texas". Neste mesmo período identificaram o vetor Boophilus annulatus e o modo de transmissão. Em 1888, Babés identificou na Romênia a B.bovis como agente causal da Hemoglobinúria bovina.

Em 1910, na África do Sul, foi identificado o terceiro agente etiológico relacionado com a tristeza P. bovina, o Anaplasma marginale, identificado como agente causal do febre biliar (THEILER, 1910).

No Brasil, o primeiro registro da "febre do Texas", foi realizado por FAJARDO (1901), ao examinar animais recém-importados e em fase de aclimatação no Rio de Janeiro. A Anaplasmose foi relatada por CARINI em 1910 no Estado de São Paulo, estando a doença presente no País, onde vem causando inúmeros prejuízos.

Na América Latina, estima-se que o complexo Tristeza Parasitária Bovina (TPB), cause um prejuízo de U$ 266 milhões por ano e somente a Anaplasmose nos EUA causa perdas estimadas em cerca de U$ 100 milhões por ano.

No Brasil, em 1985 o Ministério da Agricultura estimou a perda por carrapatos e as doenças transmitidas por eles em mais de U$ 1 bilhão. Em 2002, Grisi et all reafirmam que as perdas causadas pelos carrapatos eTPB superam 2 bilhões de dólares/ano.

As perdas são decorrentes dos prejuízos diretos e indiretos que a doença causa. A morbidade é considerada alta para os países tropicais e subtropicais e a mortalidade é alta em áreas de instabilidade enzoótica. Deve-se considerar ainda, os custos com os medicamentos para tratamento e recuperação dos animais.

A TPB é conhecida no Brasil, por vários nomes, como pindura, mal da ponta, piroplasmose, mal triste dentre outros nomes, sendo reconhecidamente uma das doenças que mais mata bezerros nos primeiros meses de vida, principalmente os de raças européias importados ou não e aqueles provenientes de cruzamentos industriais entre zebuínos e taurinos.

Apesar de serem atacados, os animais da raça zebuína são mais resistentes à doença, reagindo bem à presença dos agentes infecciosos, por serem esses animais mais rústicos, devido à longa convivência com os agentes causadores da Tristeza Parasitária durante anos e anos e por receberem alimentação materna, "ad libidum" desde as primeiras horas de vida até o 6º/7º mês.

A doença é mais encontrada nos rebanhos leiteiros onde o carrapato aparece em infestações irregulares, variando de baixa à alta, causando grandes perdas econômicas pela influência que exerce no crescimento e desenvolvimento desses animais, pelas altas perdas de produção de carne e leite e pelos distúrbios reprodutivos, com interferência direta na produtividade do rebanho.

A Tristeza Parasitária tem a sua maior prevalência entre os animais subnutridos e com baixa resistência, os quais são criados em pastagens de má qualidade ou em bezerros nos primeiros meses de vida, que ainda não têm o seu sistema imunológico completo , se tornando portanto, vulneráveis à instalação dos agentes infecciosos. A falta do Colostro (imunoglobinas passivas) contribui para aumentar a prevalência entre os animais jovens.

Estudos efetuados por vários pesquisadores em animais importados ou provenientes de cruzamentos mal conduzidos indicaram mortalidade de até 80%. No sul do País se trata de uma doença endêmica, responsável por grandes perdas nos meses mais quentes do ano.

Segundo a Dra. Nara Amélia da Rosa Farias, da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, a Tristeza Parasitária se constitui num dos maiores problemas sanitários daquela região, sendo responsável por infectar até 30% de um rebanho, com mortalidade de 10% entre os animais infectados.

A doença ocorre com maior intensidade no Rio Grande do Sul, devido ao frio naquela região. No período de maio a agosto as temperaturas são baixíssimas, diminuindo o número de carrapatos nos animais e nas pastagens, com um desafio muito baixo ou nulo de parasitismo por carrapatos, consequentemente também dos agentes causadores da Tristeza Parasitária.

Assim, os animais no período do inverno, ficam menos expostos a uma infecção pelo baixo parasitismo, desenvolvendo poucos anticorpos para sua defesa e portanto, ficando mais vulneráveis à doença, ao contrário dos períodos mais quentes que ao sofrerem pressão constante de carrapatos, desenvolvem anticorpos com maior frequência; o sistema imunológico estimulado pelas inoculações dos agentes infecciosos, adquire uma defesa natural da doença.

A Dra. Nara ainda afirmou que animais estabulados e recuperados da Tristeza Parasitária, com medicamentos e alimentação reforçada, demoraram de 30 a 90 dias para atingirem o nível adequado de glóbulos vermelhos no sangue, demostrando a gravidade da doença e sua importância econômica.

Estas observações quando relacionadas a animais criados a campo, são mais severas, pois a disponibilidade de alimentos não é tão grande, quando comparada com os animais estabulados.